primeiro pensámos que era um casamento, apesar do mau gosto dos trajes.
depois vimos sair da porta mais à direita, de quem de frente para a capela da estrela, quatro homens e um caixão.
"afinal..." pensámos. rodámos ambos a cabeça em direcção à estrada,
parecia ensaiado este nosso movimento, verificámos a presença do carro funerário, e de seguida voltámos o olhar para os quatro homens e um caixão e seguimo-los até ao carro.
não sei para onde olhou ele a seguir, eu continuei a olhar para os homens a separem-se do caixão, e senti-me incomodada com a indiferença que me assaltou, ou não, tantas vezes senti a cabeça quase a explodir, por pensar na morte, no fim, no vazio, e agora nada, tive até a ousadia de pensar que aquele carro funerário era, como todos os outros carros que estão na moda, cinzento metalizado…
aproximámo-nos da porta mais à esquerda, ele perguntou-me se queria entrar, encolhi os ombros e ele concordou que não com um “eh!”
entrámos então pelo portão do lado oposto da estrada para o jardim da estrela, onde os patos não nos provocaram tanta indiferença.
vimos árvores com mais de 100 anos cravadas de assinaturas a canivete de pessoas com menos de 15, vimos uma estátua de mármore com um pénis desenhado com spray roxo.
comentámos que os cactos crescem muito depressa e que tivemos na nossa antiga casa uma árvore igual a uma que lá estava. assistimos ainda a uma curta cena de acasalamento entre pombos e soltámos algumas gargalhadas.
À saída voltámos a olhar para a capela, estava mais bonita do que quando lá tínhamos chegado, ele disse “hoje já não se constroem coisas assim…”, e eu ia-lhe mostrar a minha opinião sobre esse assunto mas fomos interrompidos por um homem que vendia pequenas peças em ardósia, disse que vivia na rua, junto à capela, tinha uma filha com doze anos, e que era o seu aniversário, demos-lhe 50 cêntimos mas não quisemos nenhuma peça.